Entrevista: finalistas do Concurso KAIRA LOORO – EQUIPE CASACHZIL

No dia 14 de maio foram divulgados os ganhadores do Concurso Kaira Looro, um concurso internacional cujo objetivo era promover uma arquitetura sagrada e simbólica para a região de Tanaf no Senegal, buscando melhorar as condições precárias da área de intervenção.

Foram jurados: Kengo Kuma, Ko Nakamura (University of Tokyo), A. Ghirardelli (SBGA ), A. Muzzonigro (Stefano Boeri Architects), R. Bouman (Mohn + Bouman Architects) C. Chiarelli (Arcò), A. Ferrara (Juri Troy Architects), Pilar Diez Rodriguez, R. Kasik (X Architekten), S. D’Urso (University of Catania), I. Gomis (Tanaf Mayor), I. Lutri (InArch), W. Baricchi (CNAPPC).

Ao todo 18 projetos foram premiados oficialmente: 1º, 2º e 3º prêmios e 5 menções (que foram apresentados nesta publicação) e 10 finalistas.

Entre os finalistas, 2 equipes brasileiras, CASACHZIL e COSSERZIL.

Com o objetivo de estimular a participação de arquitetos e estudantes em concursos de projetos, convidamos as equipes brasileiras para uma breve entrevista, para assim compartilharem um pouco do sentimento de ter participado e se destacado entre os demais.

Segue abaixo a entrevista realizada com a equipe CASACHZIL _ Lucas Sulzbach, Alexandre Höllermann,Henrique Caumo, Lucas Medeiros, Renata Araujo


REFARQ: Breve apresentação da equipe

CASACHZIL:

Alexandre Engel Budiner Höllermann, 26, Graduado em Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário UNIVATES

Lucas Richardt Medeiros, 23, Graduando em Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário UNIVATES

Lucas Rogério Sulzbach, 26 anos, Graduado em Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário UNIVATES

Henrique Luis Viecelin Caumo, 25 anos, Graduado em Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário UNIVATES

Renata de Oliveira Araujo, 24, Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte)


REFARQBreve apresentação da proposta

CASACHZIL_Henrique: Além de um espaço para adoração, seria uma descrição apropriada, pois foi isso que buscamos fortalecer durante todo o processo de criação, uma espaço de cultivo a celebração, a reflexão, ao crescimento, ao respeito, um lugar ao mesmo tempo particular e comum. Todas estas intenções projetuais resultaram em um espaço principal sem forma definida, onde todos os espaços são diferentes mas nenhum é mais que o outro, e os únicos elementos que se destacam são a árvore e a água.
A árvore representa a vida, a evolução,o crescimento, simboliza cada um de nós. E a água representa o alimento, não apenas material, mas também espiritual.
O acesso a este espaço se dá a partir de uma área de transição, um espaço de peregrinação, de preparo para para a atividade que será executada.

CASACHZIL_Renata: Propusemos um espaço concêntrico e de layout livre. A organização livre propõe a possibilidade de adoração individual, mesmo que compartilhado o espaço físico, para cada crença, tendo em vista as diferentes religiões presentes na vila.
Utilizamos-nos principalmente de elementos da natureza: como a água da cisterna central e o ar que penetra por uma arquitetura permeável. A árvore, como elemento vivo e natural, se relaciona com os ciclos da vida. O chão com terra e plantas aproximam o homem da natureza como elemento divino.


REFARQ: Tanaf é uma região pobre do Senegal, onde a população sofre com a desnutrição e precariedade de infraestrutura (água, energia elétrica, saneamento) entre outros problemas. Qual foi a maior dificuldade ao projetar para um local assim?

CASACHZIL_Henrique: Na minha opinião, uma das maiores dificuldades foi a adequação dos materiais utilizados para o projeto, a falta de um conhecimento mais aprofundado sobre a região dificultou a escolhas quanto aos materiais e a tecnologia construtiva adotada.

CASACHZIL_Renata: Acredito que um dos maiores desafios para projetar para um local com as restrições como as de Tanaf é saber que a arquitetura por si só jamais será capaz de solucionar todas as essas carências. O que pode ser feito é fornecer uma pequena contribuição, através do poder de intervenção que nos foi concebido pelo concurso.
Então, neste sentido, acredito que o desafio constou em tentar suprir as necessidades básicas mais imediatas da localidade com poucos recursos, principalmente no referente à disponibilidade de mão de obra qualificada (que era inexistente, de acordo com o edital) e a exequibilidade.


Vista externa


REFARQ: A proposta arquitetônica é limitada por causa do local. Como projetar algo simples, mas original e que tenha sim um partido arquitetônico?

CASACHZIL_Henrique: Não existe uma regra ou um método projetual padrão, durante o lançamento da proposta modificamos várias vezes a volumetria, o partido, o programa, enfim o projeto como um todo sofreu inúmeras alterações buscando experimentar um grande número de propostas. Tendo essa relevante quantidade de alternativas projetuais, o principal é a análise de o que realmente é viável naquele local, tanto em questões econômicas quanto sociais. Acredito que o mais importante no lançamento de uma proposta como essa e a sensibilidade e o respeito com quem iria utilizar essa edificação.

CASACHZIL_Renata : De maneira financeira e material, sim, existiam resitrções. Mas sob os aspectos subjetivos e culturais, acredito que esse projeto nos ofereceu uma infinidade de possibilidades de design e uma liberdade de criação imensas. O patrimônio cultural da Vila de Tanaf foi uma verdadeira riqueza que pudemos explorar e trazer pro nosso projeto.
Tratamos com a emoção e a religiosidade humana, traduzidos numa experiência sensorial única, sob a forma de arquitetura religiosa. E é justamente neste ponto que acreditamos que reside a diferença entre a criação de uma boa arquitetura e a mera construção sem significado. Arquitetura, para ter um significância e qualidade projetual, não necessariamente precisa de um orçamento exorbitante e tecnologias avançadas.
Neste sentido, nosso projeto foi pautado na criação de uma experiência espiritual e contemplativa marcante, através do a utilização das riquezas naturais do próprio sítio: jogo de luz e sombra, ventilação, vegetação, terra, água, etc.


REFARQ: Como a cultura do local foi tratada no desenvolvimento da proposta?

CASACHZIL_Henrique: Houve a tentativa de incorporar a cultura local nos elementos e técnicas construtivas, e a partir de nossa interpretação quanto ao material analisado, na própria criação do ambiente, entendendo esse como um espaço de troca, de crescimento, de
partilha.
CASACHZIL_Renata: Procuramos preservar e respeitar a diversidade cultural e religiosa da região, uma vez que estaríamos projetando um espaço ecumênico que permitisse a liberdade de culto pera as mais variadas religiões presentes naquela região do Senegal.
Procuramos incorporar elementos locais no projeto, como o uso da terra batida nas paredes, madeira, etc.


Interno árvore

Interno cisterna


REFARQ: O setor da construção civil tende a visar mais o lucro do que qualquer outro fator, qual a visão do grupo a respeito de projetos de caráter social como este?

CASACHZIL_Henrique: Acreditamos que é de suma importância o envolvimento e o incentivo de projetos como este. Estas ações reafirmam a importância do papel social desempenhado pelo Arquiteto e Urbanista, considerando que estamos em todo e qualquer trabalho, lidando com pessoas, com sentimentos e sensações. É gratificante e enriquecedor poder participar de ações como esta onde buscamos entender e refletir sobre a forma como o nosso trabalho irá melhor interferir na vida de outras pessoas em escala individual e até mesmo coletiva.
CASACHZIL_Renata: Esse concurso é simplesmente brilhante. Para mim, parece quase que um sonho que uma organização consiga mobilizar arquitetos e estudantes do mundo inteiro a dedicarem sua atenção à uma região como Tanaf, a fim de desenvolverem propostas arquitetônicas que buscam solucionar, mesmo que parcialmente, algumas questões de infraestrutura e necessidades locais. Acho que todo mundo que participou do Kaira Looro deu o melhor de si e tentou buscar a solução que lhe pareceu mais adequada para criar algo de fato especial para a vila.






REFARQ: Como vocês enxergam o papel do arquiteto no desenvolvimento de uma sociedade mais sustentável, colaborativa e humana?

CASACHZIL_Henrique: O Arquiteto e Urbanista tem um papel extremamente importante no desenvolvimento de sociedades mais conscientes de uma forma geral, isso pelo fato de podermos edificar os locais onde as pessoas irão desempenhar suas atividades diárias.
Inconscientemente nossas obras estarão presentes e atuantes, interferindo na forma como as sociedades evoluem.
Não é excesso de romantismo, claro que devemos levar em consideração as questões econômicas, mas não podemos ser inteiramente balizados por elas, esse foi um fator que buscamos ter constantemente presente na nossa proposta, e ao nosso ver é esse o papel do arquiteto, a tentativa de ponderar entre o que é viável economicamente e o que é viável socialmente.


planta

corte

fachada


veja a entrevista feita com a equipe COSSERZIL _ composta por Marcos Bresser, Thiago Maurelio e Eduardo Dugaich.

Página com todos os premiados do Cuncurso: http://www.kairalooro.com/competition/winningprojets_sacredarchitecture.html

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