Entrevista: finalistas do Concurso Kaira Looro – equipe COSSERZIL

No último dia 14 foram divulgados os ganhadores do Concurso Kaira Looro, um concurso internacional cujo objetivo era promover uma arquitetura sagrada e simbólica para a região de Tanaf no Senegal, buscando melhorar as condições precárias da área de intervenção.

Foram jurados: Kengo Kuma, Ko Nakamura (University of Tokyo), A. Ghirardelli (SBGA ), A. Muzzonigro (Stefano Boeri Architects), R. Bouman (Mohn + Bouman Architects) C. Chiarelli (Arcò), A. Ferrara (Juri Troy Architects), Pilar Diez Rodriguez, R. Kasik (X Architekten), S. D’Urso (University of Catania), I. Gomis (Tanaf Mayor), I. Lutri (InArch), W. Baricchi (CNAPPC).

Ao todo 18 projetos foram premiados oficialmente: 1º, 2º e 3º prêmios e 5 menções (que foram apresentados nesta publicação) e 10 finalistas.

Entre os finalistas, 2 equipes brasileiras, CASACHZIL e COSSERZIL.

Com o objetivo de estimular a participação de arquitetos e estudantes em concursos de projetos, convidamos as equipes brasileiras para uma breve entrevista, para assim compartilharem um pouco do sentimento de ter participado e se destacado entre os demais. Segue abaixo a entrevista realizada com a equipe COSSERZIL _ composta por Marcos Bresser, Thiago Maurelio e Eduardo Dugaich.


 

REFARQ: Breve apresentação da equipe

COSSERZIL: Nós três estudamos arquitetura no Mackenzie. Thiago e Eduardo, 24, voltaram recentemente de intercâmbio e estão no último ano de faculdade,Marcos, 23 se formou em 2016 e trabalha como arquiteto. Em 2014 participamos em nosso primeiro concurso de estudantes e tivemos a felicidade de pegar a primeira colocação. Desde então nossas horas de sono foram substituídas pela paixão por projetar, produzir e melhorar a cada dia. Nos unimos e abrimos o MDB studio, voltado principalmente à realização de imagens de projetos não construídos para arquitetos e estudantes e hoje já começamos com nossos primeiros projetos. Se passamos um mês sem entrar em algum concurso foi muito. Somamos hoje sete prêmios em concursos, sendo um profissional (para o mobiliário urbano de são paulo junto a um grupo de 8 estudantes), e agora esse é o primeiro internacional (de muitos esperamos). Ficamos extremamente felizes com o resultado e encaramos a colocação de finalista entre cerca de 650 equipes inscritas como um primeiro lugar. Ver uma outra equipe brasileira entre os finalistas conosco foi uma grande alegria, torcemos muito pela arquitetura no país.

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REFARQBreve apresentação da proposta

COSSERZIL: Se fossemos explicar esse projeto em poucas palavras seria: um local para todos. Apesar de servir a propósitos multi-religiosos, focamos muito na questão do encontro entre pessoas de diferentes crenças em um único espaço. Por isso a forma quadrada, no centro da via principal de Tanaff, com acessos iguais por todos os lados. É uma declaração de que um espaço dedicado ao encontro é mais importante do que a eficiência do deslocamento. O objetivo é também criar um marco, uma referência que ganha esse título não por sua dimensão, mas por sua posição. Quanto à religião, dividimos dessa maneira o projeto em três momentos: o profano, a transição entre profano e divino, e o divino. De maneira resumida, o profano é o exterior com uma praça dedicada a abrigar eventos ao ar livre e servir de apoio às pessoas antes e depois da prática da religião. Um espaço que teve grande importância histórica nas inúmeras praças e pátios em frente a igrejas, mesquitas, no centro de aldeias; espaço de intensa interação social. A transição é um anel que circunda a construção em um corredor com aberturas que diminuem à medida que se chega ao acesso do espaço central. E finalmente o espaço divino e central, dedicado à introspecção a partir do contraste de cores entre o externo avermelhado e o interior branco, uma luz e temperatura agradáveis e um óculo central representando a natureza e o divino.

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REFARQ: Tanaf é uma região pobre do Senegal, onde a população sofre com a desnutrição e precariedade de infraestrutura (água, energia elétrica, saneamento) entre outros problemas. Qual foi a maior dificuldade ao projetar para um local assim?

COSSERZIL: As dificuldades são inúmeras. Desde ter poucos recursos para construir até ter de tratar com problemas sociais que vão além da simples realização do programa proposto. Mas talvez a maior dificuldade seja ter a sensibilidade de conseguir identificar as necessidades dessas pessoas que lá vivem e que nunca conhecemos. Por mais completo que seja o edital, definir o que é desejável, positivo ou construtível pelos moradores de Tanaff é um trabalho que requer incansáveis discussões, muita pesquisa e uma parcela grande de apostas. Isso ocorre durante toda etapa do processo, desde a concepção até a realização do layout da prancha de apresentação. E acima de tudo, isso requer uma enorme responsabilidade. Construir algo que perdura ao tempo e requer um investimento relativamente alto pode ter fortes consequências na vida das pessoas envolvidas, positivas ou não…






REFARQ: A proposta arquitetônica é limitada por causa do local. Como projetar algo simples, mas original e que tenha sim um partido arquitetônico?

COSSERZIL: Não vemos isso como uma limitação, muito pelo contrário. Acreditamos que é nesse momento que as verdadeiras habilidades do arquiteto são colocadas em cheque. Não adianta buscar materiais caros e inovadores, estruturas mirabolantes, nem inserir tecnologias de ponta, apesar do diabinho no seu ombro sussurrar: “vai, coloca um balanço gigante, enche de vidro que vai ficar muito louco…” Aí entra um pouco daquela sensibilidade que falamos. A busca por um partido passa ser constantemente testada pelas limitações técnicas. E a verdadeira beleza de tudo isso é conseguir uma resposta que resolve um partido e todas as outras questões em relação a programa e construção de maneira simples, barata e bonita. Fomos atrás disso em todos os momentos e isso representou um crescimento enorme para todos nós, uma experiência única. As discussões em torno do partido foram extremamente conceituais e abstratas, tratando muito mais de religião, sensações, espiritualidade e simbologia do que o próprio físico da construção.

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REFARQ: Como a cultura do local foi tratada no desenvolvimento da proposta?

COSSERZIL: Mais uma vez falamos aqui em sensibilidade. Quisemos trazer a responsabilidade de uma construção que segue em sua materialidade e estrutura as edificações já existentes no local. Tomamos cuidado em não ultrapassar os seis metros de altura dos edifícios do local por respeito a esse limite oficial ou não. Era muito importante para nós que os moradores de lá gostassem, se identificassem com o que foi concebido por um estrangeiro.

Além disso focamos muito na diversidade religiosa: os moradores de Tanaff se dividem, ou se misturam, entre cristãos, muçulmanos e animistas. Com um passado recente de guerra civil, o Senegal é um surpreendente exemplo de reconciliação e vida em comunidade a partir da implantação dos tribunais Gacaca. Buscamos em todos os momentos potencializar esse momento de reconciliação e criar uma imagem para as gerações futuras onde todos são iguais independente de suas crenças. E isso é delicado. Tem de se tomar muito cuidado com simbologias que favoreçam certas crenças acima de outras, espaços que excluem possibilidades de eventos de determinadas religiões… o foco principal é o ser humano como grupo, a união como protagonista. Nossa proposta busca um local neutro, central, focado no encontro de pessoas que em vez de doutrinadas por uma figura em um púlpito, sentam umas de frente para as outras em uma arquibancada central.

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REFARQ: O setor da construção civil tende a visar mais o lucro do que qualquer outro fator, qual a visão do grupo a respeito de projetos de caráter social como este?

COSSERZIL: São necessários, essenciais e escassos. Esse é um concurso que comprova que nós arquitetos temos o poder de realizar respostas criativas, inteligentes, baratas e responsáveis. Não servimos apenas aos abastados capazes de investir enormes quantias de dinheiro em construções embasbacantes. Esse poder está aí para ser usado. Usem!!!


REFARQ: Como vocês enxergam o papel do arquiteto no desenvolvimento de uma sociedade mais sustentável, colaborativa e humana?

COSSERZIL: Acreditamos que passou o tempo das mentes brilhantes e solitárias que surgem com ideias inovadoras em guardanapos de botecos de esquina. Nada contra elas, mas enxergamos e buscamos um novo momento coletivo. Arquitetos dedicados à união de forças para alterar condições sociais de nossa responsabilidade. Que deixam seus ateliers controlados, exclusivos e confortáveis. Uma classe de intelectuais, técnicos e pessoas capacitadas de todos os tipos que abraçam a responsabilidade por todos os problemas atuais de mobilidade, exclusão social, insalubridade, depredação do meio ambiente… pois sim são problemas nossos. Afinal somos arquitetos e urbanistas.


 

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Eles podem ser encontrados no facebook como @mdbimagens e no instagram como @mdbstudio

Página com todos os premiados do Cuncurso: http://www.kairalooro.com/competition/winningprojets_sacredarchitecture.html

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